­ Pedalada Serramar 2011

Edição de Aniversário – 10 Anos

 

Serramar Ride 2011 – 10th Anniversary Edition

 

 

HÁ dez anos dois amigos estavam conversando a respeito de um passeio a pé que deveria ir do litoral do Rio Grande do Sul até os campos de cima da serra. O passeio acabou sendo realizado de bicicleta e assim surgia a tradicional “indiarada” chamada Pedalada Serramar .  (www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2010.htm www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2009.htm,   www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2008.htm, 

www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2007.htm). O nome foi adotado pelo fato do local de partida ser um dos municípios da serra e a chegada no litoral do estado.

 

Ten years ago two friends had a conversation about a walking tour that should go from the shores of Rio Grande do Sul to the highlands of the state. The hiking expedition ended up been made by bicycle, and in the opposite direction. The annual tour was born and named Pedalada Serramar
– Sierra to the sea ride – because it start in one of the cities in the mountains and goes to the shores of Rio Grande do Sul. (Read previous tour reports: www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2010.htm,  www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2009.htm,
www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2008.htm  www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2007.htm)

 

Neste ano contei com a participação de dois novos ciclistas que depois de terem lido o relato da edição 2010 da pedalada, resolveram acompanhar-me.  Avisei-os com bastante antecedência sobre o que os esperaria no alto da serra, e quais seriam as dificuldades. Mas o comentário era: “Não pode ser tão difícil assim”. Mal sabiam eles o que os esperava...

 

This year I had the companionship of two new cyclists. They each decided to join me after reading the 2010 ride report. I warned them about the difficult conditions they should they expect in the mountains, and about the hardships of such an undertaking. But the general reaction was: “It
can’t be that bad!”
They hardly understood what was waiting for them.

 

Primeiro Dia – Day 1

 

 

O ponto de partida foi a cidade de Cambará do Sul. Chegamos até lá com as bikes de carro, que foi deixado junto à Pousada Paraíso (54 3251 1352). O objetivo seria fazer um giro por algumas cidades da serra e retornar para Cambará do Sul, onde eles embarcariam de volta para casa e eu seguira para o litoral. Após um belo café da manhã e os preparativos das bikes, colocamos o pé na estrada rumo à São José dos Ausentes distante 55 quilômetros de Cambará.

 

The starting point was the city of Cambará do Sul. We got there with the bikes by car, which was left at the Pousada Paraíso (54 3251 1352). The plans were to explore a few cities in the mountains, and then head back to Cambará do Sul, where they would retrieve the car and return home while I would go the shores. After checking the gear and eating a delicious breakfast, we hit the road towards São José dos Ausentes, 55 km (35 mi) away from Cambará.

 

   Surly LHT

 

O início do passeio foi uma beleza! O dia estava nublado, sem ventos e a temperatura em torno dos 20 graus centígrados. Nos primeiros 5 quilômetros a estrada foi recentemente asfaltada. Meus colegas começaram a achar que eu havia exagerado no relato das dificuldades do trajeto. Um deles perguntava: “Pode piorar?” (Esse bordão iria ficar famoso durante o passeio...) Eu só olhei para ele e sorrindo disse: “Vai piorar...”.

 

The first few miles were very nice. The sky was cloudy, no winds bothered, and the temperature was a pleasant 70 F. The road was paved for the first 3 miles, so my fellow cyclists started to think I had exaggerated the difficulties of the route. One of them asked: “Can it get worse?”(That comment was going to become famous during the tour). I only looked at him and with a wry smile on my face said: “Yes, indeed.”

 

 

 

 

 

 

 

Mas assim que começamos a nos aproximar da vila de Ouro Verde, a situação da estrada ERS-020 começou a mudar...

 

As soon as we reached the Ouro Verde district the overall situation of the ERS-020 road begun to change.

 

Pista Irregular é uma maneira bem suave de dizer que a piso é feito de pedras grandes, soltas e afiadas. Além do mais, as chuvas torrenciais que se abateram sobre a região nos dias anteriores deixaram o trecho muito pior, especialmente por causa do tráfego pesado de veículos indo e vindo da única indústria da região (uma fábrica de celulose).

 

“Irregular Road" (Pista Irregular) it is a very polite way of saying that the road is made of huge loose and sharp stones. In addition, torrential rainstorms earlier that week made the road even worse, especially because of high traffic from heavy trucks in and out of the only industry in the region, a paper mill plant.

 

 

 

 

 

Iniciando uma longa descida – Beginning a long descent

 

 

 

 

 

 

A vila de Ouro Verde é o que mais próximo posso chamar de faroeste. Poucas casas, um pequeno comércio, nenhuma rua asfaltada. Tudo cercado por montanhas e imensas florestas verdes de pinheiros e araucárias.

 

Ouro Verde district is the closest thing  to far west that we have, with no paved streets, and only a handful of businesses and a few houses. Mountains with huge forests of pine and araucaria trees surround the village.

 

 

 

E novamente a pergunta: “Pode piorar?”. Pode sim.

Question again: “Can it get worse?” Yes indeed!

 

 

 

 

 

 

Mas o visual compensa...

But the scenery is worthwhile…

 

 

 

 

Ao longo do trajeto pudemos nos deparar com várias espécies da fauna local. Nem sempre conseguimos fotografá-los, pois os bichos fogem muito rápido. Esses aí abaixo foram uma exceção: uma bela família de javalis, caminhando tranquilamente pela estrada, sob os olhos atentos da mamãe javali. Ela parou uma ou duas vezes para ver quem estava seguindo eles. Decidimos manter uma distância segura...

 

 Along the way we saw many species of the wildlife. We could not always photograph them because the wild animals escaped very fast. Those below are an exception: a charming young family of wild boars calmly walking along the road, under the attentive eyes of their mother. She stopped once or twice to stare at who followed them. We decided to keep a safe distance because it does not pay to annoy wild boar.

 

 

 

 

Uma família selvagem no caminhoA wild family on the way

 

 

 

 

Já passavam da uma da tarde e decidimos almoçar. Meu colega sonhava em comer um belo filé de truta no Vale das Trutas. Mas não chegaríamos lá antes das três. Ele teve de contentar-se com água, alguns biscoitos e umas balas. Para ajudar, compartilhamos um salame colonial que foi degustado como uma fina iguaria pelos ciclistas (risos).

 

It was already past 1 p.m. so we decided to have lunch. One of my fellow cyclists was daydreaming about eating a nice trout filet at the Vale das Trutas, but we were not supposed to get there until 3 p.m.  He had to be satisfied with water, a few crackers and some candies. I was able to help by sharing a few pieces of homemade sausage that both bikers thought was a fine delicacy .

 

 

Pedras, pedrinhas, pedrõesStones in all sizes

 

 

E finalmente chegamos ao lugar que alguns dizem que é o “fim do mundo” (Na verdade é onde o “vento faz a curva”): a divisa entre Cambará do Sul e São José dos Ausentes pela estrada ERS-020. A paisagem é muito realmente muito bonita. Mas aquelas pedrinhas afiadas pelo caminho fazem com que a média do pedal caia para poucos quilômetros por hora, além de desgastar o ciclista uma barbaridade.

 

We finally got to some people say it’s “the end of the world” (the truth is it is were the “wind turns back” )— the city limits between Cambará do Sul and São José dos Ausentes at the ERS-020 road. The scenery is gorgeous!  But those little sharp stones along the way took much of the our energy and meant that the average speed had dropped to a few miles per hour.

 

 

 

 

 

 

 

O dia estava transcorrendo rápido e não estávamos tendo muito progresso. Os 55 km iniciais agora pareciam que haviam dobrado de tamanho devido à dificuldade do terreno. O colega que no início só pensava em pedalar lomba acima, agora já admitia de vez em quando descer da bike e empurra-la em alguns trechos. Mas como parávamos frequentemente para fotografar, aproveitávamos para descansar um pouco cada vez.

 

The day was ending fast and we did make much of a progress along the way. The initial 34 miles now seemed to have doubled in length because of the terrain difficulties. One of the my companions, who once only climbed uphill standing on the pedals, now had to push the bike every once in a while. We stopped more often for photos so we could take a breather.

 

 

 

 

 

 

 

Até que enfim estávamos chegando perto de São José dos Ausentes. Logo após o entroncamento com a BR-285 passaríamos pelo Vale das Trutas e estaríamos quase lá...

 

At last we were approaching São José dos Ausentes. We would reach the Vale das Trutas (Trout’s Valley) right after the intersection with the BR-285 road. Almost there now...

 

 

 

 

 

 

Depois dessa linda paisagem a coisa piorou mesmo. Logo após o Vale, existe uma subida das mais desgraçadas. Só é possível passar empurrando a bike. Tivemos uma pequena pane numa das bikes que foi resolvida 20 minutos depois. O fato é que o estresse da pane da bike acabou deixando a gente mais cansando ainda. Já eram 16 horas e nada de chegarmos à Ausentes. Fomos chegar lá somente depois das 17 horas, o que seria muito bom se não tivéssemos de pedalar mais 33 km para chegar até o destino previsto para o final do dia: a Pousada Fazenda Cachoeirão dos Rodrigues.

 

 After that beautiful sight down in the valley, things only got worse. Right after the Vale das Trutas we faced a hill that is a terrific challenge. One can only get up by pushing the bike. One of the bikes had a chain problem which was fixed 20 minutes later, and this was a very stressful event which let us even more tired. At 4 p.m. we were still far from reaching Ausentes. We got there at 5 p.m., something that could have been considered very good if we did not have to ride an additional 21 miles to reach our destination: the Pousada Fazenda Cachoeirão dos Rodrigues.

 

 

 

Após uma rápida conversa com o pessoal do balcão de informações da Secretaria de Turismo da cidade, decidimos seguir pedalando até a pousada, pois todas as informações davam conta que as estradas estavam boas e os 33 km seriam percorridos rapidamente.

 

After a quick conversation with the people at the local tourist authority bureau, we decided to go ahead and ride the 21 extra miles because all the info available mentioned good conditions for the unpaved roads ahead.

 

 

 

 

De fato os primeiros 10 quilômetros foram até bem rápidos. Mas em seguida o tempo fechou de vez. Uma chuva fina e persistente pegou o grupo de cheio. Além disso as subidas e descidas constantes faziam com que tivéssemos de empurrar as bikes por centenas de metros cada vez.

 

Mas o derradeiro sofrimento estava por vir. Um pouco antes de chegarmos a pousada nos deparamos com uma subida infernal; coisa de fazer os bikers mais experientes arrepiarem de medo. Um dos colegas  seguia um pouco à nossa frente e quando ele viu a subida, simplesmente ficou petrificado. Então eu disse: “Tu havias perguntado se iria piorar? Agora piorou...

 

O outro só olhava para mim e depois de 12 horas pedalando eles só dizia: O que é que estou fazendo aqui?...”

 

Começamos a subir, digo, empurrar as bikes morro acima. Como estratégia para não desmaiarmos pelo meio do caminho resolvi empurrar a bike por 20 segundos, parar, travar os freios das duas rodas e descansar por 15 segundos respirando profundamente. Fazer novamente a contagem durante a subida, parar, travar, contar, descansar, repetir...

 

We rode the first 6 miles quickly, but conditions deteriorated after that. A thin persistent rain hit us right in the face, and hills continuously forced us to push the bikes hundreds of yards at a time.

 

But the real hell was yet to come. A few miles before we reached the Pousada , we faced a devilish hill. The grade was so steep that the most experienced cyclist wouldn’t dare to take it at only one time. One of the cyclists,  who was a little bit ahead of us, became petrified, so I said: “Remember when you asked me if it could get worse? Now it’s the worst!”

 

After 12 hours in the saddle, my other companion only said: “What the hell am I doing here?”

 

We started to climb...I mean...push the bikes uphill. Our strategy to avoid fainting halfway to the top was to push the bike for 20 seconds, stop, hold both brakes, and rest for 15 seconds to slow deep breathing. Count again moving uphill, stop, brake, count, rest, repeat.

 

 

Claro que fazer isso e olhar para frente e ver que existem ainda uns 500 metros de subida dá um certo nervosismo. Mas não havia outra coisa possível a fazer. Já estávamos a cerca de 1200 metros de altitude e obviamente o ar fica um pouco mais rarefeito. Nada demais, a não ser que você já esteja pedalando há 12 horas e a sua bike esteja com 15 kg de bagagem...

 

Of course, looking ahead and realizing that one still has 1/3 of a mile to climb demoralizes anyone. But there was nothing else we could have done. We were at 4000 ft and obviously suffering from a lack of oxygen. No big deal. Unless one has been riding a bike for 12 straight hours with 30 lbs of luggage!

 

Ao final da subida chegamos nas nuvens. Ou pelo menos a paisagem era celestial...

 

At the end of the hill we reached the clouds. Or at least a heavenly scenario:

 

 

 

 

As nove da noite conseguimos chegar na Fazenda Cachoeirão dos Rodrigues!!!

 

At 9 p.m. we arrived at the Cachoeirão dos Rodrigues Farm, at last!

 

A pousada é na verdade a casa da família Rodrigues, e fica na fazenda do mesmo nome (54 9905 0522). A principal atração da fazenda é na verdade, a enorme cachoeira que dá nome ao lugar. O lugar é muito simples, mas o tratamento dado ao hóspede é VIP 5 estrelas.

 

The inn is the home of the Rodrigues family, and it’s located at the farm with the same name. (phone: 54  9905 0522). The high waterfall at the location it’s the place’s main tourist attraction and gives it its name. The inn has very simple accommodations, guests receive a VIP five-star service.

 

 

Estatísticas do dia:                                                 Stats of the day

Horário de saída: 08h30min (Cambará do Sul – RS)  Departure time

Horário de chegada: 20h30min (S.J.Ausentes – RS)  Arrival time

Quilometragem total: 85,0 km                                Total distance

Tempo total de viagem: 12h00min                          Total trip time

Velocidade média de viagem: 7,0 km/h                    Average speed

Tempo efetivo de pedal: 8h30min                           Effective riding time

Velocidade média efetiva de pedal: 9,9 km/h            Effective average riding speed

 

 

 

Segundo Dia – Day 2

 

 

 

O segundo dia teve seus planos alterados logo no início. De cara eu percebi que o dia anterior havia sido um pouco puxado demais, especialmente para meus colegas de pedal. Em vez de cairmos logo cedo na estrada rumando de volta à São José dos Ausentes e dali para a cidade de Bom Jesus, decidimos ficar a manhã toda na pousada descansando e aproveitando as belezas naturais. Para compensar o tempo lá, perguntamos aos donos se eles não conheciam alguém que pudesse levar-nos embarcados para a sede do município, pois assim evitaríamos o pior trecho e ainda chegaríamos ao final do dia na outra parada programada. Eles rapidamente contataram com um capataz de uma fazenda vizinha que concordou em levar o grupo até Ausentes por uma “módica tarifa”, o que foi prontamente aceito por todos.

 

Partimos então para conhecer a pousada e os arredores. Vou abster-me de comentários, pois acho que as imagens apesar de não fazerem justiça a beleza do lugar, vão expressar melhor do que mil palavras.

 

The second day started with an immediate change in plans. I realized that the day before amounted to too much cycling. My companions, especially, were too tired. Instead of hitting the road early that morning and heading towards São José dos Ausentes and then the city of Bom Jesus, we decided to stay at the Fazenda Cachoeirão for awhile, to rest and enjoy the place’s natural beauty. In drawing up the schedule, I asked the owners if they knew someone who could give us and our bikes a lift to downtown Ausentes. Doing this we could avoid the worse of the road and still be on schedule to arrive at Bom Jesus. They quickly contacted a person from another farm nearby that agreed to transport the group to Ausentes for a small fee, which we promptly accepted.

 

We then went on a hiking tour at the farm, and instead of describing the hike, I'll le the photos speak for themselves:

 

Bandeira do Rio Grande do Sul: orgulho presente!

Rio Grande do Sul´s banner: showing pride!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cachoeirão dos Rodrigues: 40 metros de altura

Cachoeirão dos Rodrigues: 120 feet high

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas a imagem que mais gosto do local é uma panorâmica que fiz no ano de 2006 e pode ser acessada em: www.marcosnetto.com.br/serra/SJAusentes_pan.jpg

Nela pode-se ter uma idéia da grandiosidade da paisagem local.

 

No início da tarde nosso “transporte” chegou. Foi apenas uma questão de ajeitar as bikes na caçamba da picape e rodar até a sede do município, o que foi feito em pouco mais de uma hora de viagem.

 

But the image I like the most is a panoramic image I made back in 2006. It can be seen at www.marcosnetto.com.br/serra/SJAusentes_pan.jpg. One can certainly appreciate the beauty of the local scenery.

 

Our “transportation” arrived early in the afternoon. It was then just a matter of placing the bikes in the pick-up truck bed and head downtown, something we accomplished in a little more than one hour.

 

 

 

De São José dos Ausentes rumamos para a cidade de Bom Jesus pela BR-285. Este trecho, outrora uma pedreira, agora está totalmente asfaltado e o pedal foi uma maravilha! Até mesmo as fortíssimas pancadas de chuvas que pegamos pelo caminho não incomodaram nada. Foram até um refresco para nós, cujo único trabalho foi ter de parar as bikes para ensacar os alforjes e bolsas para manter toda a bagagem seca.

 

From São José dos Ausentes we headed on our bikes to Bom Jesus using the BR-285 road. This road used to be a tough one but now it is fully paved. The cycling was wonderful, with nothing to trouble us. Not even the  strong rainstorms on way. Actually they were very much welcome to cool he heat of the day. We only had to spend some time to put rain covers over the panniers.

 

 

 

 

 

Aqui faço uma pausa para elogiar o equipamento. Apesar de toda a chuvarada as bagagens mantiveram-se secas graças as capas dos alforjes e da bolsa de guidão.

 

Here I take a break to praise my equipment. Even through all the rain everything was kept dry thanks to the rain covers we placed at the panniers and handlebar bags.

 

 

Chegamos a Bom Jesus um pouco antes das 8 da noite e fomos direto para o Hotel Angelina (54 3237 1456), cuja hospedagem foi tranqüila e confortável, inclusive com um espaço fechado para o pernoite das bikes.

 

Em Bom Jesus não deixe de comer na Lancheria Marrocos. Peça a “refeição colonial” (para uma ou duas pessoas). Você não vai encontrar nada igual. Ideal para ciclistas famintos. (risos)

 

We arrived at Bom Jesus a little before 8 p.m. and went straight to Hotel Angelina (54 3237 1456). There we had a warm welcome including a safe place to store the bikes overnight. When in Bom Jesus do not forget to eat at Marrocos Restaurant. Ask for “colonial meal” for one or two people. You will not find anything like that — ideal for hungry cyclists!

 

Estatísticas do dia:                                                 Stats of the day

Horário de saída: 15h50min (Ausentes – RS)            Departure time

Horário de chegada: 19h50min (Bom Jesus – RS)     Arrival time

Quilometragem total: 44,0 km                                Total distance

Tempo total de viagem: 4h00min                                     Total trip time

Velocidade média de viagem: 11,0 km/h                  Average speed

Tempo efetivo de pedal: 2h40min                           Effective riding time

Velocidade média efetiva de pedal: 16,1 km/h          Effective average riding speed

 

 

 

Terceiro Dia – Day 3

Pedalando nas Nuvens - Riding Into The Clouds

 

 

 

A programação do terceiro dia previa sair de Bom Jesus rumo à cidade de Jaquirana e dali seguir até Cambará do Sul, num total de 90 quilômetros, sendo aproximadamente metade disso em estradas de chão. Mas apesar de termos pedalado muito pouco no dia anterior, pecebi que os colegas estavam muito desgastados, especialmente nas partes mais “sensíveis”. Assim, não seria muito sensato passar grande parte do dia dando solavancos em estradas sem pavimentação.

 

Além disso o pessoal local comentou que o caminho entre Jaquirana e Cambará estaria muito ruim; pior do que o trecho entre Cambará e Ausentes. Como eu já havia pedalado por ali (vide relato de 2010), propus ao pessoal que fossemos pela ERS-110 até a ERS-453 (a famosa Rota do Sol) e dali seguiríamos rumo leste até Tainhas e depois de volta a Cambará do Sul. O trajeto seria ampliado em 30 km, mas todo o trecho seria feito em asfalto a exceção de 3 km em obras na RS-110.

 

Os dois prontamente aceitaram, pois além de estarem com pressa de chegar em Cambará do Sul para embarcar as bikes e retornar a Canoas (o plano era pernoitar em Cambará), tinham certeza de que fariam uma média de horária bem maior do que havíamos feito.

 

The schedule for the third day called for us to ride from Bom Jesus to the city of Jaquirana and then on  to Cambará do Su, for al total of 56 miles. About half of that should be on unpaved roads. But even though we had cycled very little the day before, I noticed my companions were really worn out, specially in the “highly sensitive” parts of the body. I thought it would not be wise to spend most of the day bumping on poor roads. Besides that we had learned from local folks that the road to Jaquirana e Cambará was very bad, even worse than the portion between Cambará and Ausentes. I had ridden there (see 2010 report), so I suggested we used the ERS-110 up to the ERS-453 (known as The Sun Route) before turning left towards Tainhas and then back to Cambará do Sul. We would ride an additional 19 miles this way, but all the roads (except for a 2-mile portion) was in excellent condition.

 

The two others promptly accepted because they were eager to get to Cambará and go back to Canoas, instead of staying overnight there. They were very sure they could ride at a much higher average speed we had done before.

 

 

 

A princípio foi tudo tranqüilo. A RS-110 tem um longo trecho em descida até chegar na ponte do Rio das Antas na divisa entre Bom Jesus e Jaquirana. Uma paisagem deslumbrante e o sonho de todo o ciclista: descer numa estrada de asfalto liso e sem movimento. Realmente o mais próximo do que posso imaginar que seja “pedalar nas nuvens”.

 

The ride began smoothly. There is a long way downhill to the Antas´s River bridge between Bom Jesus and Jaquirana. Amazing scenery and a cyclist’s dream, riding a smooth and empty road all the way down. That’s the closest to what I call “riding into the clouds”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Buenas, como diz o velho ditado “Tudo que sobe tem que descer”. No nosso caso, toda a descida é acompanhada por uma subida.

 

E que subida...

 

Estávamos em cerca de 1100 metros de altitude. Descemos na ponte a cerca de 600 metros, para depois subir tudo de novo. Nada de anormal, se não fosse o colega perguntando de novo: “Pode piorar?”. Pode sim. Uma chuva torrencial desabou sobre nós. Mas não foi uma chuva qualquer. Foi a chuva!

 

Nas três horas seguintes o máximo que conseguimos fazer foi pedalar a não mais do que 5 km/h debaixo de chuva torrencial. Levamos cerca de 3 horas para fazer pouco mais de 15 quilômetros serra acima. A cada nova curva nos deparávamos com uma nova subida ainda pior do que a anterior. Lembro-me de ter feito um lanche lá pelas 11 horas na beira da estrada, simplesmente parando a bike no acostamento e comendo uns biscoitos em pé debaixo de chuva, pois não havia qualquer forma de abrigar-me. Não iria adiantar nada mesmo, pois eu já estava completamente ensopado há muito tempo...

 

Well, like the old saying says: “Everything that goes up must go down.” In our case, all the roads that go down must be climbed up again. And what a climb!

 

We were at an altitude of 3800 feet. The bridge was at about 1800 feet and we had go climb the mountain again. No big deal if not for that question again: “Can it get worse?”. Yes, indeed. A torrential thunderstorm fell on us. Not any ordinary tropical rain. That was THE storm!

 

The next three hours we couldn´t ride more than 3 mph under that heavy rain. We took three hours to ride a little more than 10 miles uphill. Every new turn we faced an even steeper ascent than the one before. I remember having my lunch at 11 a.m. by the side of the road. I simply stopped the bike on the road shoulder and ate crackers in the rain because there was no way I could find a shelter. That would not do any good either, because I had already been soaking wet for a long time.

 

 

 

Cada vez que eu olhava para o companheiro de pedal eu já perguntava em tom de gozação: “Pode piorar?” Ele nem respondia nada... E não é que piorou mesmo?

 

Every time I faced one of my fellow cyclists, I joked: “Can it get worse?”. He did not bother to answer. It indeed got worse!

 

 

Logo depois de passarmos este trecho sem asfalto da estrada (estávamos a cerca de 35 km da Rota do Sol), a chuva parou mas fomos pegos de frente por um vento daqueles! O que era para ser um pedal fácil serra abaixo tornou-se um suplício. Com o vento de frente nossa média de velocidade caiu para menos de 10 km/h. Meus colegas bikers, apesar de estarem bem mais leves que eu, acabaram ficando bem para trás no trajeto. Por várias vezes parei para espera-los, aproveitando o tempo para beber água, comer biscoitos ou passar protetor solar.

 

The rain stopped right after we passed the 2-mile unpaved stretch of the road (at about  21 miles from The Sun Route). But then we had very strong headwinds! What should be an easy ride going downhill became very difficult. Our average riding speed drop to less than 7 mph because of the wind blowing in our faces. Even though my fellow cyclists were traveling lighter than me, they ended up way back me on the road. I had to stop many times to wait for them. This forced stops were used to hydrate, eat crackers and re-apply sunscreen when necessary.

 

 

A paisagem continuava monotonamente linda. Conseguimos chegar ao entroncamento da ERS-110 com a ERS-453 lá pelas 16 horas. Comemos alguns pastéis e os dois disseram que não agüentavam mais, e que estariam procurando algum veículo que pudesse leva-los até Cambará. Ainda faltavam 50 km...

 

Então como eles não tinham mais intenção de pernoitar em Cambará do Sul, eu também vi que não faria sentido ir até lá para simplesmente pegar o carro e voltar com eles. Acertamos que eles tentariam voltar para lá enquanto eu tentaria chegar até o litoral. Isto significaria percorrer mais de 160 km num único dia para mim.

 

Para eles seria um tremendo desafio. Completamente no bagaço, eles teriam de fazer os últimos 50 km com três subidas muito fortes na Rota do Sol, e depois fazer um longo trecho em subida até chegar em Cambará. Para mim seria a maior quilometragem já pedalada num só dia, mas com a diferença de neste dia eu já estava com a bike totalmente carregada e subido muita serra debaixo de chuva.

 

Assim, coloquei a bike da estrada e a todo gás rumei para o litoral pela Rota do Sol passando pela ERS-453 e depois pela ERS-486.

 

The scenery was beautiful. We reached the intersection of ERS-110 and ERS-453 at 4 p.m. We ate some “pastéis" and my companions told me they could not keep going. They were about to look for some kind of transport to take them to Cambará, 30 miles away.

 

Once they no longer had the intention of staying overnight in Cambará do Sul, it made no sense to me to go there just to pick up the car and then come back. We decided they would try to reach Cambará while I would try to get to the shore. That meant I had to ride more than 100 miles in only one day.

 

It would be a tremendous challenge for them. They would have to ride the last 30 miles completely worn out, facing three huge climbs at the Sun Route and one last uphill stretch near Cambará. To me it would be the longest ride ever in only one day, with the addition of a heavily packed bike going up and down the mountains in the rain. So I did hit the road again full throttle to the shore using the Sun Route, first at the ERS-453 and later at the ERS-486.

 

 

Esta foi uma das poucas imagens que consegui fazer. Logo após chegar na Vila Aratinga, uma (mais uma...) chuva torrencial caiu no meu lombo. Já desci a RS-486 pela Serra do Pinto inúmeras vezes. Mas como essa eu nunca havia passado. Foram 11 km de descida debaixo d´água e com os freios acionados. Os únicos pontos onde houve uma folga foi dentro dos túneis. Mas o mais incrível eu ainda estaria por descobrir. Durante a descida eu ouvi alguns ruídos; uns estouros. Não dei bola e segui adiante.

 

This was one of the very few images I was able to make. Soon after I reached Aratinga district, yet another torrential rain fell on my head. I have ridden RS-486 descending to the Pinto Sierra many times. But this time it was a unique experience. The 7 miles downhill were made literally underwater pulling the brakes all the time. The only relief I had was inside the tunnels. But the most incredible event was yet to come. During the descent I heard a sort of “bang”. I did not pay attention and went ahead.

 

 

 

 

Já quase chegando ao meu destino e feliz da vida notei que o freio estava travando a roda traseira. A princípio pensei que tivesse ficado desregulado por causa da chuva. Mas um olhar mais cuidadoso mostrou que a roda estava descentrada. O motivo:

 

Quite happy that I was about to reach my final destination, I noticed the rear wheel was braking erratically. At first I thought the rear brake had gone wild due to the rain. But a careful look showed an untrue wheel. The reason?

 

 

 

QUATRO raios quebrados... Eu sempre levo dois de reserva. Mas quatro já passa da minha conta... Resolvi inspecionar então a roda da frente, para garantir que não havia outro problema. E o que vejo:

 

FOUR broken spokes! I always bring along two spares. But four was way out of my league. I decided to check the front wheel to make sure nothing else was wrong. And what did I see?

 

 

Um belíssimo corte de 3 cm de comprimento no pneu. Fiquei pensando no tipo de impacto que deve ter acontecido para que um pneu da qualidade de um Schwalbe Marathon Plus pudesse ter sido cortado daquela forma? E graças essa qualidade ele levou o impacto, cortou, mas não furou. 

 

Por causa disso decidi que a minha cota de sorte para a pedalada poderia estar chegando ao fim, uma vez que descer a serra daquele jeito poderia ter tido conseqüências bem piores. Resolvi pedalar devagarinho até chegar no litoral na Praia de Bom Jesus no município de Arroio do Sal.  Eu ainda pretendia pedalar até Tramandaí e depois até Canoas. Mas não seria muito sensato dar chance para o azar...

 

An incredible 1 ½  inch cut in the tire. I started wondering what kind of impact must have happened to make that hole in a quality tire such as Schwalbe Marathon Plus. Thanks to bomb-proof construction it took the hit, perforated, but did not flat.

 

This incident made me think that my share of good luck could be reaching its end. Descending the mountain with the bike in this condition could have had very bad consequences. I decided then to ride really slow until I got to the shore at Bom Jesus beach located at Arroio do Sal city. I still intended to ride to Tramandaí and then back to Canoas. But it would not have been wise to do so, given all the bad luck.

 

 

 

Assim depois de 13 horas e 165 km encerrei a Pedalada Serramar 2011, saindo da serra e chegando até o mar, literalmente.

 

So, 13 hours and 100 miles later Pedalada Serramar 2011 reached the end, from mountain to the sea, literally.

 

 

 

Ah! E os amigos ciclistas? Também conseguiram chegar em Cambará do Sul lá pelas 8 da noite. E se alguém encontrar um deles depois disso não esqueçam de perguntar: “Pode piorar?” Aposto que vai dizer:  NÃO!!!  (risos)

 

What about my fellow bikers? They made it to Cambará do Sul at 8 p.m. And if any one of you by any chance meets one of them after that, please do not forget to ask him: “Can it get worse?” I bet his answer will be: NO!

 

Estatísticas do dia:                                                 Stats of the day

Horário de saída: 08h00min (Bom Jesus – RS)                   Departure time

Horário de chegada: 21h30min (Arroio do Sal – RS) Departure time

Quilometragem total: 165,0 km                              Total distance

Tempo total de viagem: 13h30min                          Total trip time

Velocidade média de viagem: 12,2 km/h                  Average speed

Tempo efetivo de pedal: 11h00min                         Effective riding time

Velocidade média efetiva de pedal: 15,0 km/h          Effective average riding speed

 

 

 

 

Quilometragem total final: 294 km                 Total ride distance

Pneus furados: nenhum                                Flat tires: none

Incidentes: nenhum                                      Incidents: none

Diversão: 100%                                           Fun: 100%

 

Dicas:

- Um vídeo de aproximadamente 6 minutos com algumas imagens do tour está no Yoube em:  http://www.youtube.com/watch?v=UtoqlEAhEIc

 

- Os mais interessados na “pedreira”  que tratem de aproveitar logo. Alguns trechos de estrada estão sendo preparados para pavimentação, o que ocorrerá em breve.

 

-Sites interessantes sobre a região: www.ausentesonline.com.br e www.cambaraonline.com.br

 

Tips:

- Here’s a 6 minute video at Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=sR9nTvOsQhs

- Hurry! The road is being prepared for pavement. Soon there will be no loose gravel on the way!

- Interesting websites on the region: www.ausentesonline.com.br and www.cambaraonline.com.br

 

 

Espero que todos tenham apreciado. Obrigado pela atenção um abraço e até a próxima cicloviagem!

 

I hope you all have enjoyed this report. Thank you very much coming along. See you on the  next bike tour!

 

 

 

 

Marcos Netto

Fevereiro - February 2011

 

© Marcos Netto  Twitter: @marcosnetto