PEDALADA SERRAMAR
2008
11 e 12 de janeiro de
2008

Dados e estatísticas:
Ciclistas: Marcos (43) e
Anderson (17)
Bikes: Trek 4500 / 2007
(Marcos) e GT Outpost /2008 (Anderson)
Bikes originais. Apenas a
Trek teve o guidão trocado por um riserbar Truvativ de
Primeiro Dia:
Partida: São Francisco de
Paula – RS – 08h50
Chegada: Cambará do Sul –
RS – 14h15
Segundo Dia:
Partida: Cambará do Sul –
RS – 08h00
Chegada: Arroio do Sal – RS
– 20h00
Distância percorrida:
Tempo total dos passeios:
23 horas Média:
Tempo efetivo de pedal: 15
horas Média:
Rodovias:
RS 020, SC 483, SC 450, BR 101, RS 389
Distâncias:
São Francisco ~ Cambará:
Cambará ~ Lajeado da
Margarida:
Cambará ~ Parque Aparados
da Serra:
Parque Aparados ~ Serra do
Faxinal:
Serra do Faxinal ~ Praia
Grande:
Praia Grande ~ BR 101:
BR 101 ~ Torres (BR 101):
Torres (BR 101) ~ RS 389:
Torres (RS 389) ~ Arroio do
Sal:
Em Arroio do Sal (final):
Pneus furados: 01 (na bike
GT).
Incidentes: nenhum

Pela quinta ou sexta vez realizei
um cicloturismo por um dos roteiros que mais gosto: os Campos de Cima da Serra
no Rio Grande do Sul. Este foi o seguindo ano que contei com a participação do
Anderson, que está “tomando gosto” pelo esporte; agora com bike novíssima
fazendo sua estréia em pedaladas longas. Para quem quiser ver o relato do ano
passado, basta acessar: www.marcosnetto.com.br/bike/serramar2007.htm
Nosso objetivo inicial
seria seguir por cima da serra até São José dos Ausentes, descer a Serra da
Rocinha
Eu havia passado às duas
semanas anteriores monitorando dia-a-dia as previsões do tempo. Quase cheguei a
cancelar o passeio quando em duas oportunidades as previsões marcavam chuvas
torrenciais para os três dias em que estaríamos pela serra. Mas na semana da
viagem, a previsão marcou chuva apenas para o primeiro dia, e em algumas partes
do estado do RS.

Como tradicionalmente
fazemos, subimos embarcados até São Francisco de Paula. Lá montamos as bikes e
partimos rumo a Cambará do Sul

O dia estava perfeito para
pedalar. Cerca de 26 graus Celsius; algumas nuvens, o suficiente para encobrir
o sol a aplacar o calorão de verão que estava fazendo toda a semana. Entretanto,
no momento em que estávamos partindo, uma ligação celular para o pai do
Anderson (nosso motorista do dia) informou que em nossa cidade (Canoas – RS)
estava “desabando” o mundo de tanta água...

Os primeiro quilômetros
foram uma perfeição: paisagem linda, clima agradável. Mas depois de uma hora de
pedal, avistamos um “paredão” de água vindo do rumo sul. Combinamos que, caso a
chuva viesse em nossa direção, faríamos uma parada para ensacar a bagagem e
colocar as capas de chuva.

Isto não demorou a
acontecer. O céu ficou “preto”, e o dia virou noite. Mas o mais impressionante
foi que inicialmente não choveu, mas sim baixou uma neblina das mais espessas.
A serração era tão densa que parecia que estávamos literalmente “pedalando” nas
nuvens. Esse foi um ponto em que levamos medo, pois não era possível enxergar a
mais do que uns

Quando a neblina se foi, a
água veio. Uma chuvarada daquelas! Chegamos a nossa primeira parada de descanso
no tradicional Café Tainhas sob os olhares assustados dos turistas que lá estavam
tomando café e comendo o famoso pastel. Mas a cara de pavor do pessoal quando
saímos depois de alguns minutos de lá, debaixo de chuva, foi realmente
impagável!

Bom, se antes havia
chovido, no trecho entre Tainhas e Cambará do Sul houve um verdadeiro dilúvio.
Eu já havia pedalado com chuva antes. Mas nunca ao ponto de toda a pista estar
com uma lâmina d´água de uns 2 ou

Fiquei com receio do ciclo
computador e do farol pararem de funcionar. (Aqui vai um voto de louvor para o
Cateye Enduro 8 e o HL-EL530. Mesmo com todo o aguaceiro, não deixaram de
funcionar um segundo sequer).

E assim foi até perto de Cambará. Apesar de
tanta umidade, a temperatura estava alta (uns 25 graus) e não foi
desconfortável pedalar. Mas eu já havia percebido que alguma coisa não estava
normal. Minhas suspeitas se confirmaram quando minha esposa ligou querendo
saber se havia chovido no trajeto, pois ela tinha acabado de ouvir na web que
estava “nevando na Argentina”. Ora, neve em janeiro aqui pertinho é algo para
se ficar preocupado...

Quando a chuva parou e o
sol voltou a brilhar, veio “queimando” mesmo, pois a temperatura passou dos 35
graus em pouco tempo....

Chegamos a Cambará do Sul
com tranqüilidade. Antes de chegar à cidade existe um “descidão” e depois
subida muito forte. Um aclive de


Resolvemos aproveitar a
tarde e o dia bonito para conhecer um lugar que eu havia ouvido falar muito,
mas nunca tinha tido a oportunidade de visitar: o Lajeado da Margarida.

Localizado a

Por sobre ele passa o Rio
Camisas, espalhando-se pelas pedras e criando piscinas naturais de pouca profundidade.

O visual é muito bonito e o
banho de rio uma delícia!

Mas essa moleza toda tem
seu preço: para chegar até lá o caminho é bem difícil, pois existem duas
descidas e subidas muito fortes (uns

À noite estávamos cansados,
mas felizes com passeio até o momento.

Fomos repor as “energias”
em um restaurante chamado Costaneira, bem pertinho da pousada todo feito em
lascas de madeira (as costaneiras).

Todo decorado com motivos
campeiros do RS, o restaurante serve pratos típicos da culinária gaúcha (arroz
carreteiro de charque, feijão mexido, aipim, batata doce, etc.).

O destaque fica para as
carnes, que são feitas em uma grelha e servidas em um mini-grill aquecido por
carvão em brasa colocado à mesa do cliente.

Uma maravilha! Depois de um dia de pedalada e de comer até
não agüentar mais, fomos dormir. Bem cedo, pois o outro dia seria a parte mais
difícil de todo o passeio na minha opinião.

O plano original seria
seguir até a São José dos Ausentes, famosa por ser uma
das cidades de temperatura mais frias do Brasil. Levantamos bem cedo. Mas o que
eu vi pela sacada do quarto não me agradou nada...

O tempo estava fechado.
Estava frio mesmo! A temperatura estava em 15 graus C. Ou seja, houve uma queda
de cerca de 20 graus C em menos de 24 horas. Não gostei nada disso e começamos
a preparar as bagagens e as bikes. Nesse momento eu percebi porque a bike do
Anderson estava tão mais leve que a minha: ele não havia levado quase nada de
roupas, e não tinha vestimentas quentes. Apenas duas bermudas e duas camisetas,
das quais uma ainda estava molhada da chuva do dia anterior...

Mas como não estava
chovendo, tomamos café e pegamos a estrada para Ausentes, também sob os olhares
incrédulos dos outros hóspedes da pousada. O caminho até Ausentes são “só”

Pedalamos por cerca de 10
minutos e o frio estava ruim, mas não incomodava tanto quanto o vento. Foi
quando começou a chover. Eu coloquei imediatamente minha “discreta” capa de
chuva cor-de-lajanja-pedal (uma referência à cor do layout de um conhecido site
de ciclismo). Mas o Anderson não tinha capa e protegeu-se da chuva com seu fiel
“saco de lixo de
Após uma hora de pedal em
estrada horrível, chuva e muito vento (sim, nenhuma desgraça vem sozinha...),
olhei para o Anderson e vi que ele estava tiritando de frio. Olhei para o ciclo
computador e vi que só havíamos avançado apenas
Chamei o Anderson e propus
a ele que abortássemos a viagem. Ele recusou-se, pois queria chegar a qualquer
custo lá. Ponderei dizendo que mesmo que chegássemos, no outro dia teríamos que
voltar por uma outra estrada, e não poderíamos saber em que condições físicas
estaríamos para fazer o trecho. Como ele não tinha roupas adequadas, poderia
ter uma hipotermia ou ainda se houvesse algum problema com uma das bikes,
teríamos de caminhar e rebocar as magrelas. Então tomamos a decisão mais
difícil de todo o passeio: voltar a Cambará.
Pedalamos uma hora de volta
e a chuva “apertou”. A estrada que antes era só pedra agora estava se
transformado em um lamaçal pedregoso... Quando chegamos a Cambará, liguei para
Ausentes para cancelar as reservas que havia feito em uma pousada local. No
outro lado, a resposta que ouvi quando disse que não conseguira chegar até lá
foi: “Por causa da chuva?”. Estava chovendo lá também. Então percebi que havia
tomado a decisão correta. Provavelmente teríamos pedalado por cerca de 12 horas na chuva e no frio na pior estrada do RS
caso tivéssemos insistido.

Aí entrou em ação o “plano
B”. Em vez de descer pela Serra da Rocinha conforme programado, resolvemos
descer a Serra do Faxinal. “Descer” é relativo, pois a estrada que vai de
Cambará para chegar a até a serra, passando em frente ao Parque Nacional dos
Aparados da Serra, tem as piores subidas que enfrentamos na viagem.

O altímetro de meu relógio
chegou a marcar diferenças de

Fizemos todo o trecho com
intervalos de chuva, vento, sol, mormaço, chuva de novo. O Anderson colocou e
tirou sua “capa-de-saco-de-chuva-lixo” várias vezes. Eu acabei perdendo a
paciência e tirei minha capa e meti na bagagem, pois estava ficando mais
molhado do suor do que ficaria com a chuva. E por falar na chuva, esta causou alguns
inconvenientes. O que mais me chateou foi o fato de não conseguido fazer muitas
fotos, pois não queria correr o risco de danificar a câmera. E as imagens que acabei produzindo, nem de longe tem a
qualidade que eu gostaria que tivessem, devido as más condições de
luminosidade.

Por volta das 13 horas
chegamos ao início da Serra do Faxinal.

Conforme eu havia previsto
para o Anderson, tão logo avistássemos a serra o tempo
iria melhorar. Não deu outra: lá em baixo, sol a pino! Revisamos as bikes,
fizemos um pequeno lanche, gravamos mais um pouco de nosso vídeo (em breve na
web...) e começamos a descida.

Um “downhill” furioso de
cerca de


Para sorte do Anderson,
estávamos nos revezando em quem estava a frente na
descida. No momento em que passou por mim, notei que o pneu traseiro de sua GT
estava praticamente no chão. Gritei com ele “Pára! Pára!”. Ele não teve
dúvidas: “grudou” a mão no freio a disco e a roda traseira arrastou por uns

O pneu havia furado e ele
não percebeu nada, tamanha a velocidade emoção que o guri estava sentindo na
descida. Por sorte nada de ruim aconteceu, nem com ele e nem com a bike.
Calculo que se não tivesse visto o pneu, quando ele chegasse a perceber o
problema, o pneu, câmera e principalmente o aro da roda poderiam ter se
esfarelado nas pedras. Não descobrimos o que causou o furo. Mas como a camara estava mascada em dois locais, acho que talvez tenha acontecido o que os bikers chamam de “snake bite”.

O Anderson então aproveitou
para fazer seu “batismo” em troca de pneu, em plena estrada que para nossa
sorte ficou sem qualquer movimento por uns 30 minutos.
Finalizamos a descida da
serra sem maiores problemas. Apenas a bike do Anderson perdeu um dos parafusos
que segurava um dos suportes de caramanhola.
Nesse momento houve um fato engraçado. Ele me pediu um pouco de fita isolante
para amarrar o suporte. Então eu sugeri que ele pegasse um dos parafusos que
estavam sem uso no quadro para uma (futura) colocação de bagageiro fixo. Mais
ou menos como na história do louco que sugere tirar um parafuso de cada roda do
carro... Eu disse: “Sou louco, mas não
sou burro” (risos).

Chegamos a Praia Grande,
SC, numa movimentadíssima tarde de sábado. Tradução: praticamente ninguém nas
ruas. Resolvemos trocar o almoço por um belo sorvete ao lado da Igreja da
cidade. Novamente viramos atração do pessoal local, que não conseguia acreditar
no que estávamos fazendo e para onde iríamos.

De Praia Grande até a BR
101 são cerca de

A exceção foi na chegada a
Torres, RS, logo após o posto de fiscalização do ICMS. Ali existe um viaduto em
construção e todo o tráfego é desviado para as pistas laterais. Não existe nada
alem de uma pequena faixa de rolamento para veículos. Ou se carrega a bike nas
costas (impossível pedalar) por fora da pista, ou...
Fizemos o seguinte:
começamos a controlar o fluxo e notamos que de tempos em tempos havia uma total
ausência de tráfego. Então um de nós pedalava a frente por parte do trecho e
saía da pista, para controlar o tráfego e avisar ao outro para vir pedalando
(furiosamente) e quando deveria sair da pista para não correr algum risco. Deu
algum trabalho, mas funcionou!

Em Torres, antes do trecho
final ao nosso destino, paramos para descansar em uma das tendas a beira da
Estrada do Mar (RS 389). Existem várias pelo trecho; mas eu gosto muito da
Tenda do Pelé (I), pois o pessoal além de ser muito divertido (contam piadas na
hora em que estão servindo aos clientes), ficam oferecendo degustação dos
produtos vendidos por lá (queijos, salames, rapaduras) que são uma delícia!
E ao final do dia chegamos
ao nosso destino: Arroio do Sal, RS, onde fomos recebidos na casa de meus pais
(veranistas antigos de lá) e onde reencontrei minha família que lá estava
esperando.

Todos ficaram surpresos com
nossa chegada, pois isto estava previsto para somente dois dias depois. Contamos
a aventura e todos foram unânimes em concordar que havíamos tomado a decisão
correta. Em nossa opinião, devemos sempre saber quais são os limites do homem,
da máquina e da natureza. Tentar romper estes limites não só é perigoso, mas
como em muitas vezes impossível. E se “Ausentes” está lá, vai continuar por
muito tempo, pronto para ser “conquistado” (risos) na próxima edição da
Pedalada Serramar.
Marcos Netto 
Janeiro / 2008